terça-feira, 11 de agosto de 2009

"Lua de mel, Lua de Fel"

Após alguns anos, estive a rever o filme “Lua de mel, Lua de Fel” ou “Bitter Moon”.

Publicado em 1981 o romance de Pascal Bruckner foi adaptado ao cinema por Roman Polanski em 1992. O autor de “A Semente do Diabo” ou “Chinatown” consegue projectar, neste filme, todo um universo emocional obsessivo, demencial e alucinante, de uma forma única e fascinante, como só ele consegue

Trata-se de uma história interessantíssima que se passa entre um homem e uma mulher que……"foram demasiado ambiciosos".

Este filme que vi pela 1ª vez com os meus 20 e poucos anos, continua a ser um marco do cinema, quer pelo seu grande realizador, quer pelas interpretações excessivas, mas que só assim conseguem transpor, e mostrar o pretendido: a natureza crua da mulher e do homem.

A história em traços gerais é a seguinte: dois casais: Óscar e Mimi, Nigel e Fiona.

- Óscar: um escritor americano, nunca publicado, já paraplégico, e que em tempos fora um bon vivant, homem independente, amargurado e cínico que se perdera num amor louco, repleto de sexo, desejo, obsessão, sadismo e com um cariz de extrema violência psicológica.

- Mimi: uma rapariga francesa belíssima, carente, que nunca se encontrou, e que se apaixona por um homem que chegará, além de tudo, "a lhe comer a alma", deixando-a cair num espiral de auto-destruição.

- Nigel: um inglês reprimido que resolve passar uns dias num cruzeiro com a mulher e se depara com um relato de uma história, no mínimo, sórdida, mas alucinante que o enche de desejo por uma mulher que não é a sua.

- Fiona: mulher de Nigel, apaziguada, conformada e resignada com a vida que possui ao lado do marido.

Óscar prende a atenção de Nigel durante toda a viagem contando-lhe, pormenorizadamente, a sua relação destrutiva e atribulada, mas, altamente, compensada pela componente de sexo e desejo onde não existiam barreiras para a imaginação e para a fantasia.

Num misto de aversão, desejo, curiosidade e com a promessa velada de poder vir a possuir Mimi…Nigel transforma-se num fiel ouvinte.

E o filme é isso: o relato tempestuoso e lascivo de uma relação onde um homem se torna dono e, ao mesmo tempo, escravo de uma mulher e a mulher se entrega de corpo e alma a esse homem…

A componente sádica e cínica de Óscar ao fim de algum tempo revela-se, muito em consequência da saturação, da rotina de ter uma só mulher, de viverem um para o outro, sem reversas de qualquer tipo, 24 horas por dia. Como ele bem nos conta: “Eu via-a deitada…via o seu corpo belo e voluptuoso e já não sentia nada…culpava-me a mim e a ela…sentia por nós um grande ressentimento….ir-me deitar, ao fim de algum tempo, tornou-se um sacrifício”.

Com a mulher, deste casal, nada disto se passava...pelo contrário, deixou de ter vida própria, vivia para ele única e exclusivamente, continuava a amá-lo ardentemente, um amor doentio, destrutivo...era ele o objecto do seu desejo….e com esta cegueira ou com este não querer ver… não se apercebeu que o fim há muito, tinha chegado.

Mais tarde, acaba por sair do apartamento dele…durante o tempo em que estiveram separados ele reviveu uma sensação de pura liberdade, independência, mais mulheres e todo o reviver de vida boémia a que sempre esteve habituado…claro que teve saudades dela, mas a sua liberdade estava acima de tudo.

Ela, por seu turno, não conseguiu viver sem ele ao ponto de lhe implorar para que a deixasse voltar. De tanto rastejar, e implorar o seu amor, ao ponto de ir dormir à sua porta, ele deixa-a voltar...na esperança que seja ela a querer sair...

Desta forma, ela abnega de tudo...mesmo tudo, essencialmente, de si, do seu respeito e amor-próprio, submetendo-se a todo o tipo de canalhice e humilhação que ele, com ardor, lhe impõe. A sua falta de auto-estima revelam-se em todo o seu ser, desde o desleixo com a roupa, com a aparência, ao deixar de viver, e por fim…o aborto como moeda de troca para não perder o seu (mal) amor.

A partir daqui, a história toma outro rumo... depois de uns tempos desaparecida, a curar-se física e psicologicamente, o amor de Mimi transforma-se…e esta condena o seu amante a uma existência amargurada e desprovida de sentido…fazendo com que ele prove, também, o travo amargo da (des) paixão, ao ponto de o ir ver ao hospital, torná-lo paraplégico e lhe dar esta notícia, assegurando-lhe que a partir daquele momento, ele iria estar para sempre dependente dela, e dos seus cuidados...

Note-se que ela, mesmo com todo o seu sadismo e desejo de vingança, de uma forma ou de outra, nunca o conseguiu abandonar.

Aqui, neste amor perigoso e atípico e, sem dúvida, levado ao extremo, consegue-se perceber a natureza do homem e a natureza da mulher…ou não?

O filme acaba com o assassinato de Mimi perpetrado por Óscar que em seguida se suicida.

O filme que agora revi com trinta e muitos, comprova o que senti com vinte e poucos....Tudo o que um amor não deve ser! Tudo o que nunca se deve fazer! Infelizes daqueles que por uma razão ou por outra, se tornam dependentes de um amor, de uma paixão.

Sejamos loucos, apaixonados, fogozos, capazes de rasgos e manifestações de amor…mas sem nunca perder o amor próprio, e aquele espírito de liberdade que nos permite ser tudo o que somos, com quem queremos ser...