Após alguns anos, estive a rever o filme “Lua de mel, Lua de Fel” ou “Bitter Moon”.
Publicado em 1981 o romance de Pascal Bruckner foi adaptado ao cinema por Roman Polanski em 1992. O autor de “A Semente do Diabo” ou “Chinatown” consegue projectar, neste filme, todo um universo emocional obsessivo, demencial e alucinante, de uma forma única e fascinante, como só ele consegue
Trata-se de uma história interessantíssima que se passa entre um homem e uma mulher que……"foram demasiado ambiciosos".
Este filme que vi pela 1ª vez com os meus 20 e poucos anos, continua a ser um marco do cinema, quer pelo seu grande realizador, quer pelas interpretações excessivas, mas que só assim conseguem transpor, e mostrar o pretendido: a natureza crua da mulher e do homem.
A história em traços gerais é a seguinte: dois casais: Óscar e Mimi, Nigel e Fiona.
- Óscar: um escritor americano, nunca publicado, já paraplégico, e que em tempos fora um bon vivant, homem independente, amargurado e cínico que se perdera num amor louco, repleto de sexo, desejo, obsessão, sadismo e com um cariz de extrema violência psicológica.
- Mimi: uma rapariga francesa belíssima, carente, que nunca se encontrou, e que se apaixona por um homem que chegará, além de tudo, "a lhe comer a alma", deixando-a cair num espiral de auto-destruição.
- Nigel: um inglês reprimido que resolve passar uns dias num cruzeiro com a mulher e se depara com um relato de uma história, no mínimo, sórdida, mas alucinante que o enche de desejo por uma mulher que não é a sua.
- Fiona: mulher de Nigel, apaziguada, conformada e resignada com a vida que possui ao lado do marido.
Óscar prende a atenção de Nigel durante toda a viagem contando-lhe, pormenorizadamente, a sua relação destrutiva e atribulada, mas, altamente, compensada pela componente de sexo e desejo onde não existiam barreiras para a imaginação e para a fantasia.
Num misto de aversão, desejo, curiosidade e com a promessa velada de poder vir a possuir Mimi…Nigel transforma-se num fiel ouvinte.
E o filme é isso: o relato tempestuoso e lascivo de uma relação onde um homem se torna dono e, ao mesmo tempo, escravo de uma mulher e a mulher se entrega de corpo e alma a esse homem…
A componente sádica e cínica de Óscar ao fim de algum tempo revela-se, muito em consequência da saturação, da rotina de ter uma só mulher, de viverem um para o outro, sem reversas de qualquer tipo, 24 horas por dia. Como ele bem nos conta: “Eu via-a deitada…via o seu corpo belo e voluptuoso e já não sentia nada…culpava-me a mim e a ela…sentia por nós um grande ressentimento….ir-me deitar, ao fim de algum tempo, tornou-se um sacrifício”.
Com a mulher, deste casal, nada disto se passava...pelo contrário, deixou de ter vida própria, vivia para ele única e exclusivamente, continuava a amá-lo ardentemente, um amor doentio, destrutivo...era ele o objecto do seu desejo….e com esta cegueira ou com este não querer ver… não se apercebeu que o fim há muito, tinha chegado.
Mais tarde, acaba por sair do apartamento dele…durante o tempo em que estiveram separados ele reviveu uma sensação de pura liberdade, independência, mais mulheres e todo o reviver de vida boémia a que sempre esteve habituado…claro que teve saudades dela, mas a sua liberdade estava acima de tudo.
Ela, por seu turno, não conseguiu viver sem ele ao ponto de lhe implorar para que a deixasse voltar. De tanto rastejar, e implorar o seu amor, ao ponto de ir dormir à sua porta, ele deixa-a voltar...na esperança que seja ela a querer sair...
Desta forma, ela abnega de tudo...mesmo tudo, essencialmente, de si, do seu respeito e amor-próprio, submetendo-se a todo o tipo de canalhice e humilhação que ele, com ardor, lhe impõe. A sua falta de auto-estima revelam-se em todo o seu ser, desde o desleixo com a roupa, com a aparência, ao deixar de viver, e por fim…o aborto como moeda de troca para não perder o seu (mal) amor.
A partir daqui, a história toma outro rumo... depois de uns tempos desaparecida, a curar-se física e psicologicamente, o amor de Mimi transforma-se…e esta condena o seu amante a uma existência amargurada e desprovida de sentido…fazendo com que ele prove, também, o travo amargo da (des) paixão, ao ponto de o ir ver ao hospital, torná-lo paraplégico e lhe dar esta notícia, assegurando-lhe que a partir daquele momento, ele iria estar para sempre dependente dela, e dos seus cuidados...
Note-se que ela, mesmo com todo o seu sadismo e desejo de vingança, de uma forma ou de outra, nunca o conseguiu abandonar.
Aqui, neste amor perigoso e atípico e, sem dúvida, levado ao extremo, consegue-se perceber a natureza do homem e a natureza da mulher…ou não?
O filme acaba com o assassinato de Mimi perpetrado por Óscar que em seguida se suicida.
Sejamos loucos, apaixonados, fogozos, capazes de rasgos e manifestações de amor…mas sem nunca perder o amor próprio, e aquele espírito de liberdade que nos permite ser tudo o que somos, com quem queremos ser...

3 comentários:
finalmente vou deixar um comentário no teu Blog!!:)
Pois bem, vi o filme depois de ter lido o livro que é ligeiramente diferente. Gostei do filme e adorei o livro...simplesmente adorei. Discordo em parte de ti, adorava sentir um amor assim, um amor devastador, mas obviamente com prazo.
Outro exemplo de história de amor obsessiva que adorei foi "Império dos sentidos"
beijo
e fazes tu muito bem (em deixar o comentário!). Também tenho lido e gostado muito das tuas últimas metáforas!!!
Eu devorei o livro, e amei o filme!
Quanto ao amor devastador, lê melhor o meu último parágrafo:-)
Beijos
Eu li o ultimo parágrafo e mantenho o que disse, nota que referi "...um amor devastador, mas obviamente com prazo."
Beijossssssss
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